Enfim, o novo blog:
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sexta-feira, 1 de junho de 2012
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
[6]
Flavia Alli
Daqui de cima
Daqui de cima
O céu ensina:
Deus dá asas
Pra quem tem papel.
natural é o movimento.
Entre a dúvida e a certeza, o que fazer?
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Por trás do 15 de outubro*
Flavia Alli
O 15 de outubro, acampamento mundial dos “indignados” pela fome, miséria, o capital e as opressões sociais, teve seu maior ato do Brasil na cidade de Porto Alegre. Reunindo cerca de 500 pessoas na Praça Matriz , após marcha de aproximadamente mil, em frente ao Palácio do Piratini, o evento discutiu a crise econômica, as revoluções e manifestações na Europa, Chile e norte da África, sob a reivindicação da Democracia Real Já. Mesas redondas à parte, o 15 de outubro foi de longe um ato de esquerda. Ao cair da noite, o que era para virar um grito simbólico contra o sistema capitalista virou uma grande festa de DCE. Ser “socialista”, hoje, inclui uma gama de pensamentos que já se comprovaram historicamente não superar o modelo de sociedade que vivemos. A julgar pela formação militante e a fragmentação da esquerda, caso estourasse a revolução amanhã, estaríamos fadados à derrota da classe. O Pós-modernismo tomou conta das academias, de modo que se segue o pensamento da lógica formal, caindo em análises lineares em formulações políticas e sociais, sem enxergar a totalidade da sociedade. O pragmatismo, no sentido partidário, se alastrou na esquerda, em que se utilizam de espaços estudantis para a autoconstrução, taticamente, com vistas às eleições. E, o pouco que resta de socialismo em algumas correntes ou seitas briga entre si na disputa da direção da vanguarda. Os programas de socialismo andam rebaixados, em sua maioria pautando conciliação de classes, pelas vias burocráticas do estado, em que um cargo na superestrutura burguesa equivale mais do que a consciência de classe. Os poucos espaços que exploravam a contradição capital x trabalho foram esquecidos depois de muita festa na virada. Ser socialista hoje não é sinônimo de nada. Parece que mais vale quem assume posto de crítico, em uma diletância sem fim, do que de fato estudar a sociedade e apresentar propostas com método adequado para isso. Nesse sentido, mostra-se a consciência de suas juventudes, em que a maioria é carregada de ideologia em seus superegos – por exemplo, no que diz respeito ao feminismo, em que mulheres reprimem outras esquecendo que por trás deve haver debate político, e acabam se perdendo em disputas morais - considerando que isso é reflexo da opressão histórica machista. A própria luta das mulheres no movimento feminista não dá conta de casar a pauta feminista com o recorte de classe, e apontar perspectivas para trabalhar esse eixo no seio do movimento.
Pautar, por exemplo, “Democracia Real Já” dentro de um programa que se diz socialista é desconhecer a história da burguesia e da filosofia. Em que a própria palavra diz respeito às regras do burguês, uma plataforma programática da burguesia – hoje incompatível, é verdade, com o próprio modelo econômico proposto pela mesma. Com o intuito de promover no imaginário das pessoas que enquanto esforço individual poderá chegar a um patamar de vida burguesa, vendem-se e perdem-se “sonhos” da pequena-burguesia que acaba por prejudicar os trabalhadores na luta de classes, uma vez que em uma conjuntura de ascenso é esse setor o fiel da balança para a vitória .
É preciso distinguirmos a necessidade de democracia enquanto projeto societário e enquanto uma demanda específica da realidade concreta de uma determinada particularidade. Pedir democracia na PUCRS, por exemplo, pode ser útil e necessário - em especial porque se for uma necessidade, pode aglutinar estudantes e, assim, procurar avançar nas demandas imediatas existentes até as mais globais, as quais envolvem projeto societário. No entanto, o brado por democracia em um movimento de massas pautado por uma dita vanguarda de esquerda, como ‘’Democracia Real Já’’ ou então um ‘’Chega de Corrupção’’, fosse a saída para os problemas sociais de uma sociedade capitalista é retroceder a luta de classes, uma vez que significa apenas a tentativa de melhoramento do sistema econômico – em que sabemos que não existe tal possibilidade nos marcos do próprio capital, o qual reinventa suas formas de opressões a cada momento. Além disso, a bandeira da democracia é uma plataforma política capitalista, utilizada como ideologia para manter uma minoria no poder. Colocá-la como estratégia de um movimento de massas para a sociedade acaba por entrar em contradição com a própria história da luta de classes e das bandeiras do proletariado e oprimidos.
Tão defendida pela pequena-burguesia, a democracia somente deixará de existir no comunismo, pois todos teremos equidade. Nesse sentido, a vanguarda tem deixado de pensar mais à frente, numa perspectiva de ruptura, e de olhar para trás também - pois, parece que esquece. E esquecendo, deixa de pautar à juventude políticas que respondam às necessidades reais da sociedade. A conjuntura é difícil à consciência de classe? É. E se os coletivos de juventude que constroem o movimento estudantil, hoje, não se proporem à disputa da consciência, amanhã seremos uma “esquerda” mais frágil e fragmentada, que será passada por cima numa conjuntura de ascenso, levando a lugar algum, com grande probabilidade de facilitar a vitória da burguesia sobre os trabalhadores.
O 15 de outubro foi, de fato, um ato dos indignados, daqueles que estão, como diria Mauro Iasi, em “estágio de revolta” – em demandas concretas da realidade daqueles que saíram às ruas, por mais superficial que seja. Mas, se voltarem para casa sem pensar e refletir sobre os poucos espaços politizados que lá tiveram, serão rebeldes, ativistas (de Twitter), críticos, e até revolucionários (no sentido naturalizado que o capitalismo agregou). Jamais serão agentes de uma transformação societária radical, e por isso socialismo – não capitalismo, o qual não à toa se determina conforme o capital. O que se encontra em termos de qualidade de debate dentro do movimento estudantil, hoje, está em poucas executivas de cursos, tocadas por coletivos que sobrevivem numa vanguarda de resistência da própria vanguarda. Não, por acaso, alguns coletivos mais pragmáticos do movimento estudantil e o PT estão voltando a disputar esses espaços. Os primeiros para o aparelho na autoproclamação; o segundo, para cooptar os poucos setores ainda combativos do movimento estudantil.
O 15 de outubro, pautado por uma política anticapitalista internacional, deixa aos socialistas o dever de se unificar na disputa de consciência para a luta de classes, apontando para o socialismo, por uma transformação radical da sociedade por aqueles que são protagonistas de sua própria história. E não um ato que acaba em si próprio, ciclicamente, onde forças políticas mais se preocupam com a autoconstrução do que a unidade em defesa da classe trabalhadora. Queremos e temos de lutar por nossas próprias bandeiras de luta enquanto classe trabalhadora. Não queremos o que a burguesia diz que devemos ter ou fazer, e que parte da pequena-burguesia defende. Queremos a negação, e a negação do capitalismo passa, necessariamente, pela revolução socialista.
*Esta visão teve base no movimento no Brasil, a partir da realidade vivida em Porto Alegre.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
OcuppyWall
Pronunciamento do escritor e filósofo esloveno Slavoj Zizek,
na ocupação em Wall Street
Zizek: o casamento entre democracia e capitalismo acabou
Durante o crash financeiro de 2008, foi destruída mais propriedade privada, ganha com dificuldades, do que se todos nós aqui estivéssemos a destruí-la dia e noite durante semanas. Dizem que somos sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente da mesma forma.
Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.
Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.
Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “hey, olhem para baixo!”
Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.
Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?
Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”
É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.
Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.
Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?
Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.
Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.
Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.
A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.
Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.
O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.
Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado.
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net
Publicado originalmente em Carta Maior
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
É primavera
Flavia Alli
Aos meus camaradas Alexandre e Tatirrê (em ordem alfabética).
Dia desses me disse, em tom de quem diagnosticava, que eu não conseguia desapegar. Então, comecei a olhar para tudo de excesso, e a pensar por que eu tinha aquilo. E vi que não precisava de muito. Foi quando joguei, larguei tudo fora. Porque parece não fazer mais parte de mim, apesar de terem sido importantes em algum momento - e que contribuíram para ser quem eu sou, ou os demais para si. Mas, não me enxergo em coisa alguma. É a tal da dialética. É a tal da primavera.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Cumulus Nimbus [5]
Flavia Alli
Acaso
Um nome
poderia ser tantos
Mas que se não fosse esses tantos
Não seria só um.
Talvez
Mais uma vez me pego aqui, a escrever.
Reescrevendo esta mesma frase
para dizer das vezes que apaguei.
para dizer das vezes que apaguei.
Um querer-bem
Eu esqueço,
porque alguém tem de dar fim
a este vício de nós dois.
a este vício de nós dois.
Acaso
Um nome
poderia ser tantos
Mas que se não fosse esses tantos
Não seria só um.
Mudanças
Me disseram: 'pratique o desapego'.
Aí, joguei tudo fora.
E fiquei somente com a roupa do corpo.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Aula de Vôo
Pouco tempo se passou da vez que o li. E o pouco tempo, descobri, muito mudou, quando re-li.
Aula de Vôo
Mauro Iasi
O
conhecimento
caminha
lento feito lagarta.
Primeiro
não sabe que sabe
e
voraz contenta-se com cotidiano orvalho
deixado
nas folhas vividas das manhãs.
Depois
pensa que sabe
e
se fecha em si mesmo:
faz
muralhas,
cava
Trincheiras,
ergue
barricadas.
Defendendo
o que pensa saber
levanta
certeza na forma de muro,
orgulha-se
de seu casulo.
Até
que maduro
explode
em vôos
rindo
do tempo que imagina saber
ou
guardava preso o que sabia.
Voa
alto sua ousadia
reconhecendo
o suor dos séculos
no
orvalho de cada dia.
Mas
o vôo mais belo
descobre
um dia não ser eterno.
É
tempo de acasalar:
voltar
à terra com seus ovos
à
espera de novas e prosaicas lagartas.
O
conhecimento é assim:
ri
de si mesmo
E de suas
certezas.
É
meta de forma
metamorfose
movimento
fluir
do tempo
que
tanto cria como arrasa
a
nos mostrar que para o vôo
é
preciso tanto o casulo
como
a asa'.
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